O fim de um casamento ou relacionamento não encerra a responsabilidade emocional e afetiva da paternidade. Após o divórcio, muitos pais enfrentam dificuldades para manter a convivência com os filhos, lidar com sentimento de culpa, distância afetiva e mudanças na rotina familiar. Ao mesmo tempo, crianças e adolescentes também precisam se adaptar à nova dinâmica da família, o que pode gerar insegurança, tristeza e conflitos emocionais. A psicóloga Carol França afirma que o divórcio costuma ser vivido como um processo de luto.
"Além do fim da relação conjugal, há mudanças na rotina, na identidade familiar e, muitas vezes, na convivência com os filhos. É comum surgirem sentimentos como tristeza, culpa, frustração, ansiedade e medo de perder espaço na vida das crianças. Cada pai vivencia esse processo de forma singular, dependendo de sua história, de seus recursos emocionais e da forma como a separação ocorreu."
Para a psicóloga, muitos homens têm dificuldade de exercer a paternidade após a separação e isso pode estar ligado, em muitos casos, a fatores culturais que ainda associam a figura paterna ao papel de provedor, enquanto o cuidado cotidiano é visto como responsabilidade materna. Mas ela destaca que a qualidade da relação é mais importante do que a quantidade de tempo.
"Após o divórcio, alguns pais encontram dificuldades para reorganizar a rotina, lidar com o sofrimento emocional ou redefinir seu lugar na vida dos filhos. No entanto, a paternidade pode ser fortalecida quando há disponibilidade afetiva e compromisso com o vínculo. Estar emocionalmente disponível, cumprir os acordos estabelecidos, participar da rotina, demonstrar interesse pela vida da criança e manter uma comunicação consistente ajudam a preservar um vínculo seguro e afetivo. O afastamento emocional acontece quando há ausência de contato significativo, de interesse e de participação na vida da criança. Pais que mantêm uma comunicação frequente, demonstram afeto e participam ativamente das experiências dos filhos conseguem preservar vínculos fortes, mesmo morando em casas diferentes", destacou.
*Impactos mais comuns da separação para os filhos*
Carol França, que é coordenadora do curso de psicologia da Estácio, ainda destaca que a separação dos pais não é um fator determinante de sofrimento psicológico para os filhos. Segundo ela, o que mais impacta as crianças é a forma como esse processo acontece.
"Conflitos intensos, disputas judiciais, exposição da criança aos problemas do casal e instabilidade emocional dos adultos tendem a aumentar o sofrimento. Quando a separação é conduzida com diálogo, previsibilidade e acolhimento, a adaptação costuma ser mais saudável. Entre os erros mais comuns que ocorrem numa separação, eu posso citar colocar os filhos no centro dos conflitos, utilizá-los como mensageiros entre os ex-companheiros, falar mal do outro genitor, competir pelo afeto da criança ou se afastar emocionalmente por dificuldades pessoais. A criança precisa ser preservada dos conflitos conjugais para que possa manter vínculos saudáveis com ambos os pais."
Para fortalecer o vínculo com os filhos mesmo morando em casas separadas, a especialista destaca a importância de criar momentos de qualidade, manter uma rotina de contato, participar das decisões relacionadas à educação, saúde e lazer e estar emocionalmente disponível. De acordo com ela, pequenos gestos, como acompanhar atividades escolares, conversar diariamente ou compartilhar interesses, contribuem para fortalecer a sensação de segurança e pertencimento. Ela ainda afirma que a conversa entre pais e filhos deve ser feita com linguagem adequada à idade da criança, de forma honesta e acolhedora.
"É importante explicar que a separação acontece entre os adultos, reforçar que os filhos não têm culpa pelo ocorrido e garantir que continuarão sendo amados e cuidados por ambos os pais. Também é essencial validar os sentimentos da criança e abrir espaço para perguntas."
Por fim, a psicóloga ressalta que a paternidade presente é construída por meio do envolvimento afetivo, da participação na educação, do cuidado cotidiano, da escuta e da disponibilidade emocional.
"Sustentar financeiramente é um dever importante, mas o desenvolvimento psicológico dos filhos também depende da presença consistente, do afeto, do diálogo e da construção de uma relação de confiança ao longo da vida."
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